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| Apresentação do trabalho |
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O que é Impraegnare, Espelhos dos Museus ?
Trata-se de um trabalho de captação de imagens fotográficas que levei a cabo desde 2005 nos museus, principalmente de arte antiga e de arte dita «primitiva», a partir de objectos que aí são expostos e de elementos constitutivos do próprio contexto museográfico : espacialização, cenografia, vitrinas de exposição, iluminações, visitantes espectadores… Mas mais do que isto, a fotografia quer por em evidência as várias manifestações que têm lugar no seio do museu e que são mais da ordem do imprevisto, do indeterminado e do fortuito do que do programa e do projecto, tomando em conta, nomeadamente, os fenómenos de sombra e de reflexos, os efeitos de movimentos, de desdobramentos, de sobreposições, de multiplicidade, etc.
O meu trabalho propõe desta forma uma reflexão sobre o espaço museográfico enquanto lugar, não só de mostra, de observação e de conhecimento, mas enquanto lugar de fluência, de formação, de transformação e de imaginário. As imagens fotográficas questionam o estatuto, as cargas e a eficácia das imagens e dos objectos no seio dos museus, e em particular dos objectos de rituais de tipo antropomórfico, aqueles cuja presença e a aparência de vitalidade se encontram reforçados pela representação pintada ou esculpida de um prosopon, quer dizer de uma máscara ou de um rosto. O trabalho tem por objectivo antes de mais mostrar como é que estes objectos, mesmo no seio de um contexto museográfico, e sobretudo porque aí se encontram, conservam e manifestam potencialidades de dinamismo e de influência. Isto tem certamente por consequência ir para além das críticas por vezes emitidas a propósito dos «museus dos Outros», nomeadamente por causa do estado de fixação no qual se encontram os objectos fechados e imobilizados nas vitrinas. Isto é tanto mais evidente que os objectos de rituais e de cerimónias religiosas eram amiúde, antes da sua “museificação”, intensamente animados, investidos de vida, de movimento e de poderes diversos. Estas caixas de vidro, show case ou glass boxes, que têm por função principal proteger os objectos do «tocar», criam ao mesmo tempo fortes efeitos de «asseptização» que contrastam muito com o seu estado e as suas funções de origem. Estes fenómenos, sabemo-lo, resultam da descontextualização e dos processos de “estetização” inerentes à sua presença no seio das instituições culturais e mercantis ocidentais. Trata-se assim de ver que é possível, apesar da parte certa de perda e de alteração que acontecem (paradoxo interessante a que as práticas museográficas de preservação e de conservação dão lugar) captar, graças às próprias condições de exposição dos objectos, e graças sobretudo à vitrina enquanto objecto que reflecte, a manifestação de fenómenos de movimento e de transformações, de interfluência e de impregnação recíproca nas relações que se estabelecem entre os sujeitos-espectadores e os objectos sujeitos à observação.
São igualmente tratadas as questões ligadas ao «por em presença» e ao olhar, ao olhar orientado, desdobrado, ao olhar cruzado, recíproco, mas também ao olhar que a fotografia pode fazer incidir sobre o próprio olhar. É por estes jogos de «por em presença» e de captação da dinâmica do olhar, mas também pela prática do rebatimento dos planos que tem por efeito primeiro suprimir a distancia e o afastamento entre os objectos e os sujeitos espectadores, que se manifestam a troca e a interacção entre as obras de arte e os sujeitos espectadores (mas também entre as próprias obras de arte) assim como a possibilidade do encontro como fenómeno de acolhimento e de abertura propício à transformação e ao «tornar-se Outro». Já que, de facto, o contacto com esses objectos aparentemente estrangeiros e longínquos, mesmo na sua proximidade (não menos aparente), transforma, ou pelo menos abre a possibilidade a uma transformação (a maior parte das vezes superficial e efémera, mas podendo também ser mais profunda e duradoura), do indivíduo que os visita e os contempla, da mesma forma que a presença do sujeito-visitante modifica o «estado de ser», o «aparecer» destes objectos, conferindo-lhes uma vida nova e uma forma diferente. Trata-se assim de tornar visível, graças à imagem fotográfica, uma vitalidade inesperada, um processo de movimentação e de «devir», efectuando-se nas margens e nos interstícios dos museus, estes lugares limítrofes da visibilidade e da percepção onde se manifestam fenómenos oriundos da realidade, mas de uma realidade que tem talvez a faculdade, essencial, de abrir sobre o imaginário (ou de dar a ver a sua parte inerente a e constitutiva do real ), de fazer surgir um imaginário próprio às obras, inegavelmente redobrado por um imaginário que nos é próprio e que talvez não seja tão estranho e fechado aos que tinham lugar nos contextos de produção.
Por fim, o trabalho evidencia a possibilidade de uma prática da recepção que leva à criação de novas imagens. Estas imagens querem-se inteiramente diferentes da captação de fotografias tradicionais e oficiais praticadas pela história de arte, as que são realizadas para os catálogos de arte, para as revistas científicas e para as diversas reproduções comerciais. Estas captações fotográficas, muito clássicas e muito depuradas, que privilegiam a maior parte das vezes a frontalidade ou os três quartos, o enquadramento estável e central, a uniformidade e a bela definição, caracterizam-se igualmente por uma ausência de lugar, por uma ausência de “espacialidade viva”. As obras, cuidadosamente iluminadas, são apresentadas isoladas em suspensão num espaço vazio, ou até mesmo abstracto.
Não só a série Imprægnare, Espelhos dos Museus dá conta da presença e da inserção factual na sociedade ocidental contemporânea destes objectos oriundos de “alhures” geográficos e temporais, mas ainda, por este fenómeno da apropriação dupla que mostram enquanto nela participam – a que é praticada pelos museus e a que resulta da captação fotográfica –, as imagens manifestam a mistura que se opera, os processos de sobreposição e de interpenetração dos espaços, de outra forma sempre distintos e separados, fazendo assim emergir novas composições, novos lugares, outras realidades. O rebatimento dos diferentes planos que se realiza na e pela imagem fotográfica, os do objecto e da vitrina por um lado, os do sujeito espectador e do espaço do museu por outro, não tem por efeito espalmar o espaço, mas antes pelo contrario acentuar-lhe a profundidade e a densidade e de fazer surgir dele um terceiro lugar rico de questões, de sentidos e de reflexões.
Imagens artísticas realizadas a partir de obras de arte, representações dos contextos museográficos de representação, olhares sobre o olhar…A vitrina do museu torna-se, graças ao olho-captador do aparelho fotográfico, o espelho através do qual as nossas representações dos Outros se transformam em visão de nós-próprios de modo a reduzir certamente o afastamento entre «Nós» e os «Outros» e a tornar menos estanques as definições identitárias que excluem e afastam zonas de vida cultural e histórica por meio desta noção geralmente entendida de «Alteridade».
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